[01/01/00] Entrevista exclusiva com o vocalista David DeFeis

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Com mais de 15 anos de estrada, o Virgin Steele é uma das bandas que não receberam a devida atenção do público metaller do globo. Porém, com o lançamento de The Marriage of Heaven and Hell partes I e II e, finalmente, o término da saga com “Invictus”, o grupo passou a ser visto de outra maneira. Agora, com seu mais novo disco, “The House of Atreus”, primeira parte de uma história em duas edições, o conjunto se estabelece como um estandarte do heavy metal na cena atual, mostrando que ainda estão afinadíssimos com o som que faziam desde o começo dos anos 80. Extremamente gentil e atencioso, o vocalista, tecladista, compositor e cabeça da banda David DeFeis concedeu esta entrevista exclusiva a Whiplash! por telefone, direto de sua casa, em Nova Iorque. Confira.

Por Haggen Kennedy

Colaborador Pedro Fraga Bonfim

Tradução Haggen Kennedy

Whiplash! / Bem, em primeiro lugar, gostaria de saber como a imprensa especializada tem recebido o disco…

David DeFeis / Nossa, tem recebido muito, muito bem. Receberam de braços abertos, realmente. As coisas esse ano têm sido muito boas para a banda. Até mesmo nos Estados Unidos o disco teve um retorno legal. As coisas têm sido muito positivas.

Whiplash! / E quanto ao público? Como os fãs receberam ou estão recebendo o disco?

DeFeis / Muito boa, também. Cara, lançamos o disco não tem tanto tempo e parece que ele já vendeu mais que o “Invictus”….

Whiplash! / [interrompendo] Nossa! Sério?! Mas o ‘Invictus’ foi, junto com os dois Marriages, uma explosão na carreira do Virgin Steele…

DeFeis / Pois é, pra você ver. Temos tido um retorno muito forte, muito positivo. O que acontece é que em tudo o que você faz, o pessoal gosta de um ou outro tipo de música que você tem no seu álbum e elas dizem “quero mais músicas assim” ou “quero mais músicas como aquela”. E eu tenho que dar ouvidos a quem gosta da banda, porque são os fãs que nos colocaram onde estamos. Na verdade, eu sempre navego pela Internet e dou uma olhada em GuestBooks e Message Boards sobre o Virgin Steele e fico sabendo o que as pessoas acharam disso ou daquilo. Também sempre estou atento aos e-mails que recebo e às cartas que me mandam. Assim, eu posso fazer um disco que os agrade e que me agrade, também.

Whiplash! / Legal! E você recebe correspondência de fãs brasileiros?

DeFeis / Sim, é claro! Muitas, mesmo!! E recebo cartas de fãs brasileiros há muito tempo, desde a época dos Marriages e até algumas de antes disso. Recebo também de gente da Argentina, Chile, de toda a América do Sul. De todas as partes do mundo.

Whiplash! / Mudando um pouco de assunto.. afinal, por que Rob [DeMartino, baixista] deixou a banda?

DeFeis / Bem, nós não conseguíamos mais trabalhar com ele, as coisas não funcionavam mais 100% como antes. Ele não queria seguir o estilo que a banda possui agora. O Rob queria fazer alguma coisa na linha Whitesnake, e o Virgin Steele definitivamente não vai mudar seu estilo assim. Não que Whitesnake não seja bom, é claro. Eu gosto bastante. Mas seguimos um outro estilo e vamos permanecer nele.

Whiplash! / E ele [Rob] já tem alguma banda?

DeFeis / Olha, pra falar a verdade, eu não sei. Ouvi dizer que ele estava juntando algumas pessoas para uma nova banda, mas não sei o que ele anda fazendo exatamente.

Whiplash! / Mas ele vai ajudar vocês nas apresentações ao vivo da banda?

DeFeis / Não, não. Estamos procurando alguma outra pessoa para tocar conosco.

Whiplash! / Você já tem alguém em mente?

DeFeis / Temos algumas pessoas em mente que poderiam tocar conosco, sim, mas não decidimos com quem vamos ficar. Mas é assim mesmo, quase sempre foi assim na história da banda, como eu disse há pouco {N. do T.: antes de começar a entrevista estávamos falando sobre o começo do Virgin Steele]. De qualquer modo, estávamos de uma certa forma preparados para isso pois mesmo nos discos costumamos fazer as coisas como um trio. Fizemos o ‘Atreus’ [House of Atreus’, novo disco da banda] em trio, mesmo, e foi assim até mesmo no “Invictus”.

Whiplash! / Vocês tocaram o primeiro show de vocês num teatro. É isso mesmo?

DeFeis / É por aí. O que aconteceu é que a produção de palco de ‘The House of Atreus’ foi feita em um teatro, numa cidade chamada Memmingen, localizada ao sul da Alemanha [N do E: fica em Hessen], e como figurantes, tivemos 11 atores e atrizes cantando ao vivo no palco. Mas na época da produção do palco, eles estavam cantando junto com mixagens especiais pré-gravadas que eu mesmo preparei exatamente para isso. Então, basicamente, é aquilo ali o que você ouve no CD e, na verdade, o que se ouvirá no segundo [N. do E.: “The House of Atreus” é a primeira de uma história contada em duas partes], com exceção da minha linha vocal.

Whiplash! / Como você teve essa idéia?

DeFeis / Bem, era a única coisa a se fazer porque eu não podia estar lá e fazer o disco ao mesmo tempo e eu tinha vários compromissos que caíam na mesma época. Se a performance de palco acontecesse depois, não daria tempo para ensaiar tudo de uma vez. E eu tinha o prazo final para entregar o disco e o teatro tinha o prazo final para fazer a apresentação, a performance do pessoal. Era o único jeito de conseguirmos fazer tudo a tempo. Então, enquanto eu estava gravando as coisas no estúdio eu disse “tá, já tenho bastante material”. Tínhamos algumas versões diferentes de mixagens do disco e o tempo já estava se esgotando, então eu gravei a minha voz separado do resto do coro e mandei para o pessoal lá dar uma escutada. Fiquei para terminar as mixagens do resto da coisa toda aqui e cheguei lá uma semana antes da primeira apresentação. Foi legal, porque tocamos o mesmo set list nas primeiras noites e os figurantes puderam se sentir bem à vontade. Quero dizer, se você tem uma apresentação ao vivo, vãos os atores junto e você tem num palco mais figurantes do que músicos, e as pessoas podem ficar um tanto confusas com isso. Concernem-se a respeito da qualidade da música e duração do show, mas, bem, é de se esperar. Entretanto, fazemos a mesma apresentação todas as noites e o pessoal passa a entender a grandiosidade do que está realmente acontecendo. Se bem que eu às vezes faço umas loucuras com a voz para assustar o público. [risos]

Whiplash! / David, eu tenho alguns amigos que só foram conhecer o Virgin Steele quando vocês lançaram a saga Marriage of Heaven and Hell. Digo, isso foi em 95 e a banda já tem 18 anos. Na verdade, vocês vêm da velha época do metal e se estabeleceram firmemente, apesar das dificuldades, e estão aí até hoje. Eu acho que vocês deveriam ser uma banda de porte muito maior, como um IRON MAIDEN. Porém, vocês só vieram a ser conhecidos em meados dos anos 90. Como você encara isso? Você tem raiva de alguma coisa?

DeFeis / Oh, Deus, não, de modo algum. Como poderia ter raiva das pessoas que não nos conheciam? [risos] Quero dizer, eu não acho nem que sejamos ou devamos ter a mesma carga do IRON MAIDEN. Eles são muito grandes. E eles têm história pra contar. Nós somos de 80, é verdade, mas eles começaram lá em fins de 1975 e fizeram a NWOBHM. É uma puta banda. De qualquer modo, não tivemos tanto sucesso talvez porque exatamente não fizemos parte da NWOBHM, que foi um movimento essencialmente inglês [N. do T.: Virgin Steele é dos EUA]. Os nossos selos também eram pequenos e não puderam nos colocar em voga tanto quando uma major poderia faze-lo. E nós éramos muito jovens e meio doidos também [risos]. Sem dúvida perdemos boas oportunidades no meio do caminho também por falta de experiência. Mas bem, que se dane, ainda somos novos o suficiente pra fazer metal e só tendemos a melhorar. Na verdade, a banda está mais madura hoje e podemos fazer coisas que não poderíamos antes. Eu encaro o atual estágio do Virgin Steele algo como um presente, depois de tudo o que já passamos. De qualquer modo, as pessoas que não conheciam a banda antes dos dois Marriages têm uma coisa legal, porque eles podem ouvir o grupo como se fosse uma banda totalmente nova e ter um ponto de vista único sobre ele. E depois, no futuro, ainda procurar mais informações sobre ele e se deparar com velhos discos como “Age of Consent” e “Noble Savage”.

Whiplash! / E o que você acha que o Virgin Steele alcançou com “Marriage of Heaven and Hell” partes 1 & 2 e “Invictus”?

DeFeis / É como você mesmo falou, foi o que colocou a banda à mostra. Esses dois discos abriram as portas para nós. Esses três são uma trilogia e é algo que eu gosto muito de fazer, digo, escrever e compor em cima de mitologias. E, na verdade, da minha própria mitologia. Do passado, mas ainda minha. Ou nossa. É nossa terra, nosso mundo, nossa música. E é algo que vale a pena ser visto, ouvido e sentido. Alcançamos um alto estágio de maturidade e desenvoltura com essa trilogia. Sem dúvida, uma época marcante. A propósito, fizemos as óperas dos ‘Marriages’ no mesmo teatro onde fizemos as de ‘House of Atreus’. E faremos os outros álbuns lá até 2001.

Whiplash! / E o que é que a banda pode vir a alcançar com o “The House of Atreus”?

DeFeis / Acho que definitivamente podemos abrir mais mentes para o fato de que heavy metal e música clássica e/ou operística têm, na verdade, muita coisa em comum, e que você pode aprender muito com ambas. Ambas são baseadas no poder da musicalidade no poder dos sentimentos. O que eu espero ser capaz é de estender o alcance do heavy metal em todas as suas formas. Eu amo a música clássica, cresci com ela, mas sou extremamente apaixonado pelo heavy metal. E você pode sentir isso, afinal eu gravo discos de heavy metal. [risos]

Whiplash! / Acho que depois de “Invictus”, o público metaller estava em dúvida se você conseguiria fazer um disco ainda melhor que o supracitado. O que resultou numa espera de roer unhas por ‘House of Atreus’. Estava pensando, seria a época mais importante na carreira do Virgin Steele?

DeFeis / [empolgado] Cara, sem dúvida nenhuma! Muito mais olhos assistindo, muito mais ouvidos ouvindo. E nós tivemos a melhor organização de que já dispomos desde o início da carreira. Então, acho que tanto o público quanto nós esperamos muito desde disco. Acho que foi o período mais forte, o período mais maduro de nossa música e até mesmo como músicos de uma banda. Mas ainda assim acho que o melhor ainda está por vir. Ainda estamos novos e muito, muito instigados a fazer mais música, gravar e tocar e o que mais vier.

Whiplash! / Então, você realmente acha ‘House of Atreus’ o melhor disco do Virgin Steele?

DeFeis / Acho que foi o nosso álbum mais sofisticado, mais satisfatório de ter feito. Sim, é o meu preferido até agora. Mas o “Act II” [a continuação de ‘House of Atreus Act I’] será melhor ainda, tenho certeza. Nós estamos realmente muito, muito felizes com este “Act II” e o público deverá gostar muito também. Se você gostou do primeiro, vai amar o segundo. Vai fazer basicamente o que “Marriage” parte II fez com o “Marriage” parte I, vai estourar todas as expectativas. É claro que isso se deve ao que eu lhe disse, ao lance de poder estender ainda mais o poder da história, o poder que a música tem. Você pode fazer a coisa toda tomar uma forma impressionante. Quando mais você explora, mais pode fazer da história algo realmente magnânimo. Você começa a escrever o roteiro e então pergunta a si mesmo “como vou terminar isso?”, e é aí que torna a seqüência uma surpresa suprema. “Como vou parar isso?”, droga, eu poderia fazer três álbuns de novo. [risos]

Whiplash! / Hoje estamos atravessando algum tipo de ‘heavy metal revival’. Bandas novas estão aparecendo aos montes e de uma hora pra outra parece que todo mundo se interessa no heavy metal. Pelo menos é o que parece acontece na América do Sul e em algumas partes da Europa. Acontece o mesmo nos Estados Unidos ou é totalmente diferente?

DeFeis / Oh, bem, aqui a coisa é mais underground. Quero dizer, não é como no Brasil, onde o público é realmente fiel ao estilo e sobrevive até os dias de hoje. Digo, vocês também devem ter passado por um momento de crise, não?

Whiplash! / Sim, há uns dois anos, diziam que o heavy metal tinha morrido e…

DeFeis / [interrompendo, empolgadíssimo] Isso é besteira!! O heavy metal não morreu e não vai morrer nunca! Mas, de qualquer modo, olhe para vocês agora. O heavy metal está na ativa, não aconteceu nada. E nem vai acontecer, é isso o que eu quero dizer com os fãs no Brasil. O negócio de ‘heavy metal is dead’ assolou o mundo todo, mas fãs como vocês continuam aí, não se renderam a modismos. Isso é excelente. O Brasil parece que é um refúgio, o movimento sempre permanece. [risos]

Whiplash! / É, acho que sim. Como está a cena aí nos EUA?

DeFeis / É como eu estava dizendo, é uma coisa mais underground, mas quem diria!, está acontecendo alguma coisa por aqui. As pessoas parecem estar se ligando mais nesse tipo de música. É como eu estava lhe dizendo no começo da entrevista. Até mesmo aqui, nos EUA, o disco se saiu bem. Convenhamos, isso é um milagre em se tratando de heavy metal. [risos]

Whiplash! / Eu perguntei isso porque há várias bandas que não receberam a atenção requerida, como por exemplo Manilla Road e Helstar, que são dos EUA, como vocês, mas não foram tão bem–sucedidos como Manowar, Megadeth, Dream Theater, ou até guitar heroes como Greg Howe, que também são dos Estados Unidos…

DeFeis / Ah, eu lembro do Manilla Road, conhecemos os caras ‘in the early days’ [N do T.: ‘in the early days’ é um termo que significa “no começo dos anos 80”, que foram os Heavy Metal Years] e nos demos muito bem, eles faziam um som legal. Não conhecemos ninguém do Helstar, infelizmente, mas conheço o som da banda; era legal, também. Têm bons instrumentistas. Mas talvez eles não tenham tido boas chances ou bons selos para projetá-los na cena. Muita coisa é necessária pra vencer nesse meio.

Whiplash! / É verdade. Mas mudando um pouco o assunto, minha próxima pergunta é relacionada a um fato ocorrido há muito, muito tempo no passado. É verdade que você gravou um disco thrash sob o nome de Exorcist?

DeFeis / [rindo bastante] Meu Deus do céu, como vocês jornalistas me perseguem. Isso causou uma puta boataria sem fim na época e você [vai contando os anos] depois de 13 anos ainda se lembra disso? Como pode? Ah, já sei como me vingar: vou te deixar na curiosidade. [dá altas risadas]

Whiplash! / Ora, você não faria isso…

DeFeis / [ainda rindo] Oh, faria… [mais risos]. Mas está bem, está bem. Na verdade, depende do ponto de vista. Na época, eu estava escutando muita coisa thrash. Conheci um pessoal que tocava em bandas thrash e até mesmo fiquei próximo do Jeff Waters [guitarra do Annihilator], que mais tarde lançaria dois dos melhores discos no estilo de toda a história. Então, bem, fiquei influenciado pelo som na época e participei de alguns ensaios de bandas e coisas do tipo. Essa foi a razão de terem imaginado que eu tinha um projeto, pois comecei a andar com os integrantes de algumas bandas thrash na época. Me fez lembrar da minha primeira banda, até. Mas, bem, realmente meu projeto de vida foi e sempre será o Virgin Steele.

Whiplash! / Qual foi sua primeira banda?!

DeFeis / Nossa, isso tem muito tempo. Ela se chamava Phoenix.

Whiplash! / Está bem, então. Mas é engano meu ou você coleciona espadas?

DeFeis / É, eu realmente coleciono, tem tempo…

Whiplash! / É, inclusive você herdou do seu pai uma enorme coleção que mantém até hoje, não?

DeFeis / Cara, como você descobriu isso? [risos] Sim, é verdade, mas eu mesmo sou colecionador convicto, a minha coleção por si só é maior do que a que ele me deu. E eu tenho espadas até feitas por mim…

Whiplash! / Você faz espadas ?!?!

DeFeis / [rindo] Parece que você não sabe de tudo, então. [mais risos] Sim, eu faço espadas, adoro faze-las. É algo que dá muito, muito trabalho, mas glorifica quando você termina. Tenho uma espada, a minha preferida feita por mim, que tem mais de 120 centímetros. E é muito, muito pesada e resistente. Eu a fiz tem muito tempo, em 84, se não me engano. Também, teve um cara que…

Whiplash! / [interrompendo e completando] …forjou uma espada especialmente pra você, em 1983, e é sua favorita?

DeFeis / Você faz isso de propósito, é? [risos] É verdade, mesmo. O nome dele era… [fica um tempo em silêncio, tentando se lembrar] não me lembro do sobrenome dele. Era Tom Berfinge, ou alguma coisa do tipo, realmente não lembro agora. Mas bem, ele fez essa espada a pedido meu, e saiu por cerca de 120 dólares

Whiplash! / Bem legal isso. Mas além de espadas, parece que você também tem uma paixão especial por gatos e tem dois em casa…

DeFeis / Sinceramente, não é possível. Você me espiona ou o quê? [risos] Fala a verdade, onde você consegue essas informações? [mais risos] [N. do E.: nessa hora, eu fico calado pensando que era uma pergunta retórica, porém ele também não diz nada e eu percebo que ele realmente quer saber].

Whiplash! / Bem… é… segredo. [risos]

DeFeis / Ah, segredo. Mas quando é pra saber de Exorcist e de coisas de 13 anos atrás não pode ter segredo, não é? [ri bastante]

Whiplash! / Ah, mas eu sou o entrevistador, não se pode inverter os papéis aqui.

DeFeis / Está bem, espertinho. [ri] É verdade, eu tenho dois gatos em casa e você até pode ver um deles na minha última entrevista com a Strike Metal Magazine [risos]. [N do E: Strike Metal Megazine é uma revista alemã de metal]. Mas bem, eu gosto muito de gatos pelo misticismo que eles têm. São extremamente misteriosos, e tão antigos quanto o homem ou mais. E em várias mitologias, o gato é tratado como um Deus. Então, cuidado, meu jovem Kennedy, nunca fique contra um gato [risos]. Bem, fascina-me o fato de eles serem tão independentes, mas ao mesmo tempo tão socializáveis. Acho realmente interessante.

Whiplash! / Já que você falou em mitologia, vamos lá. Tanto quanto sei, todos os álbuns do Virgin Steele têm pelo menos uma música com temática mitológica. E quase todos os discos são conceituais. Temos alguns sobre divindades Vikings (“Twilight of the Gods”, “Rising Unchained”), mitologia Cristã (“Last Supper”, “Serpent’s Kiss”) e, por fim, mitologia grega. Por que você é tão interessado nesse assunto?

DeFeis / Bem, porque eu cresci nesse meio. Desde pequeno eu fui educado nesse assunto. Meu pai tinha um teatro aqui em Nova Iorque e ele também era escritor e diretor. Então, eu dispus de um grande acervo de livros e informações sobre mitologia em todas as suas vertentes. Quando pequeno, eu assistia a todas as peças de meu pai e fui crescendo aprendendo sobre isso constantemente. Digo, eu vi todas as tragédias gregas, vi peças de Shakespeare, vi de tudo. Foram momentos de extrema importância na minha vida.

Whiplash! / Nossa, que paizão, hein!

DeFeis / É, e ele ainda está vivo, com 74 anos, totalmente saudável. Isso é uma dádiva.

Whiplash! / Falando sobre o lance da cultura, relacionei com o que você disse sobre gatos e não pude deixar de pensar em uma obra literária muito famosa, que é “O Gato Preto”, de Edgar Allan Poe. O que você acha desse conto?

DeFeis / Você lê Allan Poe? Eu adoro. Eu gostei muito desse conto. Deixa os seus nervos à flor da pele por descrever como pode ser misterioso um gato.

Whiplash! / Eu gosto muito de ler. E de mitologia grega, também. Fico até agraciado por ter sido eu o entrevistador, já que você também se interessa pelo assunto. Mas me diga uma coisa, você não se sente um tanto intimidado por escrever sobre a Casa de Atreu, um assunto que já foi tema de grandes escritores gregos da antigüidade como Homero, Ésquilo, Erípedes, Sófocles, Apolônio de Rhodes e Pindar?

DeFeis / Minha nossa, você conhece mesmo sobre o assunto. Há alguma coisa que você não conheça? [risos] Bem, eu nunca tinha pensado sobre isso. Acho que não, não me sinto intimidado. Eles foram grandes, com certeza. Porém, eu faço um trabalho voltado tanto à escrita como à música, algo que eles não fizeram antes.

Whiplash! / É, mas Ésquilo foi um grande dramaturgo grego, e você envolveu atores também…

DeFeis / É verdade. Mas de qualquer modo, nunca tinha me passado pela cabeça o que você falou. Eu simplesmente gosto de escrever sobre isso, então eu vou fundo no assunto.

Whiplash! / Percebe-se. Esse lance de mitologia é planejado antes de escrever o álbum ou rola naturalmente?

DeFeis / Bem, é como eu lhe falei, praticamente todo o meu passado girou em torno disso. Então são minhas influências, meu background. Não dá pra escapar disso. É sobre o que eu escrevo melhor. E o que, na verdade, gosto de escrever. Também ajudou o fato de eu ter tido aulas de piano…

Whiplash! / Você tomou aulas de piano?

DeFeis / Sim, tomei aulas de piano quando tinha 8 anos. Fiquei até os 12 e saí. Porém, voltei depois com 15 e fiquei até os 20. Foi realmente algo muito produtivo.

Whiplash! / Você tomou aulas de canto também?

DeFeis / Não, já com o canto foi diferente, eu nunca tomei aulas. Tudo o que aprendi desenvolvi sozinho, aprendendo por mim mesmo. Sabe, na verdade, eu queria ser um guitarrista…

Whiplash! / [interrompendo] Guitarrista?!?

DeFeis / [risos] Sim, por que a surpresa? Inicialmente eu quis ser um guitarrista.

Whiplash! / E o que aconteceu? Por que não se tornou um guitarman?

DeFeis / Bem, meus pais queriam que eu aprendesse ou piano ou violino; mas não guitarra. Você sabe, eles eram voltados mais à Música Clássica e/ou Erudita, então eu fiquei sem aprender o instrumento que realmente gostaria. Mas, bem, decidi-me pelo piano. Mais tarde, eu quis cantar e, por ter inicialmente tido vontade de ser um guitarrista, pensei que faria da minha voz um outro instrumento.

Whiplash! / É, porque, na verdade, a voz é o instrumento solo da banda…

DeFeis / [empolgadíssimo] Sim, é verdade, é verdade! É exatamente isso o que eu queria dizer. Bem, então, eu decidi que iria focalizar a minha atenção para o fato de ser possível conseguir reproduzir na voz linhas de melodia que pudessem se eqüivaler a uma linha de guitarra de Plant ou até mesmo de Blackmore. Digo, eu realmente pus na cabeça que colocaria feeling na minha atuação, como se fosse um solo de Brian May.

Whiplash! / Sem dúvida, interessante. Mas voltando um pouquinho ao assunto da mitologia, temas como o de “Serpent’s Kiss” são interessantes. Há alguma chance de você trabalhar novamente com esses mitos bíblicos?

DeFeis / Ah, sim, com certeza. Claro. Ainda há muita, muita coisa pra se falar e eu ainda estou aqui, pronto a encarar novos desafios, novas temáticas. Seria muito bom voltar a trabalhar com isso. Talvez depois do segundo “House of Atreus” possamos fazer alguma coisa envolvendo isso.

Whiplash! / Mas você não acha que não há muita coisa para se extrair de estórias de uma religião que ainda vive?

DeFeis / Não, pelo contrário. Acho que, justamente por isso, há muita coisa a ser falada. Digo, é como eu lhe disse antes, são coisas da nossa vida. Por que haveria pouca coisa? A vida tem assuntos de sobra. Principalmente no quesito mitologia. Se a religião existe até hoje, bem, tanto melhor, pois deve haver ainda mais coisas para se falar.

Whiplash! / Está bem. Sobre o disco, eu percebi que há algumas músicas em que há repetições de velhas músicas do Virgin Steele. Seria como um “Metropolis II” do Dream Theater, onde você pode ouvir ainda partes de “Metropolis I”. Por que isso?

DeFeis / Oh, conhecemos os caras do Dream Theater também. Eles fazem uma música realmente complexa, não? Mas, bem, eu acho interessante o fato de, mesmo em mitologias diferentes, algumas linhas seguirem a mesma direção. Digo, há várias coisas nas mais divergentes mitologias, onde mesmos personagens aparecem ou têm os mesmos ideais ou coisa assim. Então, eu quis mostrar que há uma correlação tanto na mitologia quanto na nossa história, quero dizer, há uma interligação, por mais tênue que seja, entre os discos do Virgin Steele.

Whiplash! / As linhas de teclados estão bem clássicas. Você pegou essas influências das suas aulas de piano, mesmo?

DeFeis / Também. Eu tenho ouvido mais Música Clássica ultimamente. Mais do que de costume. Então dá pra pegar influências facilmente.

Whiplash! / Em qual personagem você acha que se encaixa melhor?

DeFeis / [pensando] Essa é difícil de responder. Eu não sei, acho que eu tenho um pouco de cada um ali, não poderia dizer que tenho a personalidade de alguém em especial…

Whiplash! / Bem, espero que você não vá ter exatamente o toque assassino deles. Cada um matando o outro e…

DeFeis / [interrompendo e rindo] Oh, Deus, de modo algum. [mais risos] As similaridades são relacionadas a coisas bem distantes disso.

Whiplash! / Tá bom, tá bom, vou acreditar {N do E: ele ri]. O “House of Atreus” é o primeiro de uma seqüência de duas partes. O que você pode me dizer do álbum subseqüente, “House of Atreus Act II”?

DeFeis / Bem, nós já temos 70% do álbum pronto e…

Whiplash! / [interrompendo] Setenta por cento ?!!?

DeFeis / [risos] Sim, 70% ! Enquanto distribuíam o disco, e etc., eu fui cuidando do novo disco. Não foi difícil, pois eu já tinha a linha de história em mente, quero dizer, já sabia sobre o que eu ia escrever, então foi um processo acelerado. Entramos nos estúdio, gravamos algumas demos e as analisamos. Por isso disse que estávamos satisfeitos com o Act II.

Whiplash! / Mas eu pensei que você tivesse apenas a linha de história do álbum, e não… 70% feito!

DeFeis / [rindo] Pois é. É que eu não costumo perder tempo, vou logo ao assunto.

Whiplash! / Percebe-se. Você por um acaso ainda sabe o que significa o verbo “dormir”?

DeFeis / [rindo] Oh, não sei, lembro-me de ter ouvido essa palavra em algum lugar distante. [risos] Mas, bem, sobre o Act II, o disco fala do retorno de Atreu e vem com ele um julgamento onde Clitemnestra e Agamenão serão julgados pelos erros que cometeram no passado.

Whiplash! / Você está do lado de Atreu, então?

DeFeis / Como assim?

Whiplash! / Bem, na história formada por você é Atreu que retorna do céu para um julgamento. Mas ele também não era de todo um santo. Ele matou Crisipo no começo, junto com Tiestes e…

DeFeis / [interrompe impressionado] Você conhece mesmo isso? Não acredito!

Whiplash! / É, eu sou louco pela Grécia e mitologia… talvez mais do que você e…

DeFeis / [rindo] Ah, não! De modo algum. Você nem foi a Grécia ainda [risos]. {N do E: antes de começar a entrevista estávamos falando da Grécia e ele me perguntou se eu já tinha ido lá].

Whiplash! / Bem, pode ser… mas eu gosto muito daquele país e do povo. Quer encarar uma disputa?

DeFeis / De que tipo?

Whiplash! / Você me pergunta coisas sobre a mitologia grega e eu te respondo.

DeFeis / [rindo] Vai ser fácil. Posso começar? [pensa um pouco] Ok. Também relacionado à história de Atreus. Que Deusa comeu uma parte do filho de Tântalus quando seu próprio pai o cozinhou e serviu aos Deuses?

Whiplash! / Essa é fácil. Você poderia fazer melhor que isso. [risos] O filho de Tântalus era Pelopes, só pra complementar o que você disse. Mas, bem, a Deusa foi Ceres.

DeFeis / Ceres? Que Deusa era?

Whiplash! / Divindade latina da vegetação e da terra. No começo era confundida com Tellus, personificação da terra nutritiva. Mais tarde ficou conhecida como Deméter ou Dimitra.

DeFeis / Certíssimo [N do E: começa a bater palmas]. Está bem, uma realmente difícil agora: o filho de um grande herói. Ele matou o rei Priamus de Tróia e o filho de Heitor quando Tróia foi derrotada pelos gregos.

Whiplash! / Você quer o nome do filho?

DeFeis / Sim. Não vou dizer o nome do pai porque seria uma pista muito grande. [risos]

Whiplash! / Mas não tem problema. Priamus, filho de Laomedontos…. bem, vamos à sua resposta. Quem o matou foi Neoptolemo, também chamado de Pirro, que mais tarde foi morto por Orestes [N do E: filho de Agamenão com Clitemnestra]. O pai dele foi simplesmente Aquiles. A mãe era Deidâmia.

DeFeis / Como é possível isso? [N do E: passamos cerca de mais 20 minutos com ele me fazendo perguntas sobre mitologia grega até que por fim ele se rende]. Cara, você é uma máquina. [risos]

Whiplash! / Você quem pediu [risos]. Mas voltando à entrevista (nossa, eu nem lembrava mais dela), quando você grava um disco poderoso como “Invictus” ou “The House of Atreus” como você combina as partes técnicas e de feeling?

DeFeis / Bem, acho que grande parte disso se deve à espontaneidade no trabalho. Como eu disse, atingimos um período de idade musical muito maduro e podemos fazer coisas que realmente não conseguíamos no começo da carreira. Claro que gravamos partes que não ficaram tão legais quanto queríamos, mas não ficamos sentados repetindo exaustivamente cada trecho. Tocamos o que estamos sentindo no momento, estando relaxados e é isso aí.

Whiplash! / Há alguma coisa que você gostaria de mudar no disco?

DeFeis / Olha, quando eu coloco o CD no carro, enquanto estou dirigindo, ou mesmo no som de casa, eu tenho dois pontos de vista: um como pessoa, o outro como músico. Eu acho que nunca conseguiria fazer um disco que soasse 100% perfeito para mim. Porque, na verdade, eu gosto de ficar no estúdio, mixando, aproveitando outras partes, compondo outras, juntando isso com aquilo e fazendo novas invenções. Então, quando eu escuto o meu disco, eu penso que pode estar legal com as coisas que eu fiz, e posso pensar que ainda faltavam algumas coisas. Mas se eu fosse sempre colocar mais coisas eu passaria a minha vida inteira no estúdio e nunca lançaria um álbum, pois sempre iria querer colocar outras coisas. É como um ciclo. Então nós chegamos lá, gravamos, fazemos tudo e lançamos. Se tiver alguma coisa que não colocamos, bem, sempre vai ter o próximo disco. [risos]

Whiplash! / David, você está sendo entrevistado por um cara que trabalha para um site de Rock. E este site é acessado cerca de 4.000 vezes por dia por usuários diferentes. Em horários de pico pode chegar até a 10.000 acessos. E essas pessoas são rockers, metallers ou bangers que procuram por news da cena metal e informações sobre bandas e etc. Como você encara a Internet quando o assunto é heavy metal?

DeFeis / Acho realmente que a Internet tem dado uma ajuda imensa ao heavy metal. Bandas underground agora tem capacidade muito maior de serem ouvidas, pois a Net abre espaço para elas, coisa que a mídia geralmente não faz. Quero dizer, o heavy metal praticamente tem andado todos esses anos sem o apoio de nada. Permaneceu vivo quase que exclusivamente pela fidelidade do público heavy metaller, e isso é maravilhoso. Então, se sem a plena ajuda de meios de comunicação como a mídia, imagine com a ajuda. E é isso que a Internet vem fazendo: abrindo muitas portas e fazendo novas trilhas. Realmente tem sido de suma importância.

Whiplash! / Bem, é isso aí, David, a entrevista finalmente chega ao fim. Você tem algum comentário final?

DeFeis / Essa foi uma entrevista longa, hein? Ficamos duas horas nesse telefone. [risos] Bem, eu gostaria de agradecer ao pessoal da Whiplash!, que nos deu essa força. Gostaria de agradecer também, claro, ao público metaller daí do Brasil que sempre esteve nos ajudando bastante, mandando cartas e dando a maior força; isso é muito importante para nós, porque a música é tudo pra gente. Esperamos que possamos tocar no Brasil tão logo quanto possível pois realmente temos vontade de conhecer o seu país e conhecer pessoalmente o público que nos manda correspondências.

Whiplash! / Falou, David, grandes abraços.

DeFeis / Grandes abraços a todos e obrigado novamente.

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